terça-feira, 13 de março de 2012

MEU VIZINHO...

 Isso se deu em 2007, quando eu voltava do trabalho, sentada no lugar que me apareceu por sorte num ônibus lotado. Eu o vi entrar, bochechas rechonchudas, gordalhucho, pele morena, cabelos e barbas brancos. Ele ainda reside em minha cidade e de vez em quando o vejo por aí, hora sério hora risonho , mas sempre balbuciando alguma coisa. Nesse dia ele entrou no mesmo ônibus e ouvíamos todos,oque esse senhor discursava, num fôlego só. E depois de algum tempo resolvi tomar nota ali mesmo do ele dizia. E o texto era exatamente assim: - "O sinhô num leva a mar deu priguntá,mas, é o sinhô que é o guarda do banco Itaú?"- indagou de um passageiro em pé do seu lado.Cuja resposta foi apenas um meneio negativo de cabeça seguido de um ligeiro sorriso.Ele prosseguiu dirigindo suas palavras para todos aleatoriamente - "Nóis tá vivendo numa guerra fria, ninguém percisa sê rico, mais um qué sê mais rico di que o otro.Pra quê panela bunita se vive vazia... E o povo nem planta mais? Na fazenda num quizerum mandá ieu embora,mas eu iscuitei os patrão falá, que iam vendê tudo pra módi transformá em sal.Vim me imbora pra Curitiba, passemo inté fome...Por lá num fiquei devendo nenhum vintém.Bom é quem pódi vortá lá.... Agente nasce e não precisa di tê medo di falecê,tem que ter medo é di fazêo mal.Se memandarem pro cemitério eu num acho ruim não, que nessa vida eu num devo nada pra seu ninguem. Uma vez quiseram me por na cadeia, mais a dispois me levaram pra o hospitar.Maquele tempo era pago e uma japonesa eu falei prela.;"To aqui cumprindo minha cina.Mão posso morrê agora não e dá meu lugar pra otro." A gente é mais vivo a dispois que morre.Quando eu f^se pudé vorto, pra módi ajudá quem precisa. Meus pecado num conto pra padre nenhum.São tudo pecadô quiném eu. Cê conhece aquele rapaz que me deu aquela camisa dez? Vortei lá pra devorvê.Se num posso dá nada prele em troca num quero a camisa não. O Jaime Lerner se quisé falá cum ele não precisa fechá a BR." Depois virou pra mim e respondeu minha única e débil pergunta: "Meu nome menina? O padre negô, mas meu pai disse que é José Canazão.Mas pra mim, meu nome é minha cara, minha cara é minha vergonha e minha vergonha é mió que dinheiro." Esse relato foi escrito por mim com misericordiosa ternura de alma do dia 03/03/2007 no interior de um ônibus endereçado ao bairro Nações em Fazenda Rio Grande-PR

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