quinta-feira, 22 de março de 2012

ALFARROBA NADA...TEM PÃO LÁ EM CASA!

 Com o senso de humor de quem passou maus bocados como pródiga mas hoje feliz em torno da mesa do PAI. _ Ôh seu moço, quanto custa essa carne seca? _ Sete cruzeiros. _Ih moço , tenho não.E a sardinha? _Quatro cruzeirose noventa centavos. _ Tenho não seu moço. _Mas afinal quanto de dinheiro você tem? _Quatro cruzeiro e muita fome. _ Vai procurar um trabalho uai. _ Onde? Aqui ninguem me conhece.O senhor por acaso teria um trabalho pra mim? _Sei não.Oque você sabe fazer? Sabe vender? _ Sei lidá cos animar.Lidá cos bichos é comigo memo. _Nossa prosa ta se incumpridando e eu tenho muito afazer.Vá andando vá.Não to com farta de pião.Pião tenho até demais. _Tá certo. Vo procurá um riacho q to feito porco de sujeira. _Porco? É to mesmo precisando de um pião pra cuidá nos porco, demiti um rapazinho q nao tinha cuidade nem com ele como ia cuidar dos meus porcos? _ O senhor demitiu ele? _Demiti que eu lá quero porco cuidando de porco? _Se eu me ajeitá o senhor me dá uma chanse? _Se merecer... _Até mais vê. _Vai lá e volta pra eu te ver, que fechando a banca você vem comigo. Meses depois.... _Ô lustrosa, ocê come demais, deixa um pouquinho pros filhotes.E ocê lupão já comeu e chefe que é chefe dá prioridade pros menorzimque tipo de porco é ocê? "Humm...té que tão mesmo apetitosa essas alfarrobas.Com uma refeição só por dia ando até pensando em disputá cocês essa sopa.Se eu não tivesse tão longe de casa...sem dinheiro....sem direito de dá as cara por lá...Té que um jantarzinho na casa do meu pai nao era má idéia...Ou sem que ele soubesse me conformava de comer no meio dos pião da casa dele.Tanta fartura por lá e eu aqui cobiçando coxo de porco...

terça-feira, 13 de março de 2012

MEU VIZINHO...

 Isso se deu em 2007, quando eu voltava do trabalho, sentada no lugar que me apareceu por sorte num ônibus lotado. Eu o vi entrar, bochechas rechonchudas, gordalhucho, pele morena, cabelos e barbas brancos. Ele ainda reside em minha cidade e de vez em quando o vejo por aí, hora sério hora risonho , mas sempre balbuciando alguma coisa. Nesse dia ele entrou no mesmo ônibus e ouvíamos todos,oque esse senhor discursava, num fôlego só. E depois de algum tempo resolvi tomar nota ali mesmo do ele dizia. E o texto era exatamente assim: - "O sinhô num leva a mar deu priguntá,mas, é o sinhô que é o guarda do banco Itaú?"- indagou de um passageiro em pé do seu lado.Cuja resposta foi apenas um meneio negativo de cabeça seguido de um ligeiro sorriso.Ele prosseguiu dirigindo suas palavras para todos aleatoriamente - "Nóis tá vivendo numa guerra fria, ninguém percisa sê rico, mais um qué sê mais rico di que o otro.Pra quê panela bunita se vive vazia... E o povo nem planta mais? Na fazenda num quizerum mandá ieu embora,mas eu iscuitei os patrão falá, que iam vendê tudo pra módi transformá em sal.Vim me imbora pra Curitiba, passemo inté fome...Por lá num fiquei devendo nenhum vintém.Bom é quem pódi vortá lá.... Agente nasce e não precisa di tê medo di falecê,tem que ter medo é di fazêo mal.Se memandarem pro cemitério eu num acho ruim não, que nessa vida eu num devo nada pra seu ninguem. Uma vez quiseram me por na cadeia, mais a dispois me levaram pra o hospitar.Maquele tempo era pago e uma japonesa eu falei prela.;"To aqui cumprindo minha cina.Mão posso morrê agora não e dá meu lugar pra otro." A gente é mais vivo a dispois que morre.Quando eu f^se pudé vorto, pra módi ajudá quem precisa. Meus pecado num conto pra padre nenhum.São tudo pecadô quiném eu. Cê conhece aquele rapaz que me deu aquela camisa dez? Vortei lá pra devorvê.Se num posso dá nada prele em troca num quero a camisa não. O Jaime Lerner se quisé falá cum ele não precisa fechá a BR." Depois virou pra mim e respondeu minha única e débil pergunta: "Meu nome menina? O padre negô, mas meu pai disse que é José Canazão.Mas pra mim, meu nome é minha cara, minha cara é minha vergonha e minha vergonha é mió que dinheiro." Esse relato foi escrito por mim com misericordiosa ternura de alma do dia 03/03/2007 no interior de um ônibus endereçado ao bairro Nações em Fazenda Rio Grande-PR